Se existe um “Google” que muita gente na segurança conhece, e que muitos atacantes também, esse nome é Shodan. Mas aqui vai um ponto importante: o Shodan não foi feito para “invadir” nada.

Ele foi criado para indexar dispositivos conectados à internet e tornar visível o que, na prática, já está exposto.

E é justamente por isso que ele pode (e deve) fazer parte de uma estratégia moderna de defesa, especialmente quando falamos de IoT, infraestrutura, serviços e superfícies de ataque esquecidas.

Continue a leitura e saiba mais!

O que é Shodan? Entenda o mecanismo de busca de dispositivos conectados

O Shodan é um buscador que varre a internet e cataloga informações públicas de serviços e dispositivos expostos. Em vez de indexar páginas, ele indexa banners de serviços, portas abertas, certificados, versões de software e outras “assinaturas” técnicas que aparecem quando um sistema responde a uma conexão.

Em outras palavras: ele mostra, por exemplo, câmeras IP, servidores, roteadores, painéis industriais, bancos de dados, equipamentos de rede e até sistemas hospitalares (desde que estejam acessíveis pela internet).

Por que isso importa para defesa?

Porque a pergunta que vale ouro é simples:

o que a internet consegue ver sobre você agora?

O Shodan responde isso com clareza. E, quando você enxerga o que está exposto, consegue reduzir a superfície de ataque antes que alguém explore.

O que o Shodan “enxerga” de um sistema

Em geral, ele coleta:

  • IP e geolocalização aproximada
  • Portas abertas e serviços rodando (HTTP, SSH, RDP, etc.)
  • Versões de software e dados de identificação do serviço
  • Certificados SSL/TLS
  • Metadados de dispositivos IoT (como modelos e fabricantes)

Shodan não significa ataque, é visibilidade

Um ponto crucial: o Shodan não “quebra” senha e não invade. Ele apenas organiza e facilita a busca de informações que já estão publicamente acessíveis.

O risco não está na ferramenta. O risco está na exposição.

Leia também: Google hacking expõe perigo de informações indexadas

Como usar o Shodan para mapear superfícies de ataque e reduzir riscos

O caminho começa com um objetivo: descobrir ativos expostos que não deveriam estar expostos, e priorizar correção.

A seguir, três usos práticos que funcionam muito bem na rotina de defesa.

1) Identifique serviços expostos por IP, domínio ou organização

Você pode iniciar de forma simples: buscando um IP público da sua empresa ou um domínio.

O Shodan pode revelar portas abertas e serviços “esquecidos”, como:

  • Painéis administrativos
  • Ambientes de teste publicados sem intenção
  • Serviços remotos acessíveis sem restrição
  • Sistemas legados que nunca foram desativados

Dica defensiva: trate o Shodan como um espelho do mundo externo. Tudo o que ele lista é um candidato a revisão.

2) Descubra dispositivos IoT e equipamentos de rede acessíveis

Esse é um dos pontos mais valiosos. IoT e equipamentos de borda frequentemente são instalados para “resolver rápido”, e viram uma porta aberta permanente.

Com o Shodan, é possível localizar:

  • Câmeras IP com interface web exposta
  • Gateways e roteadores mal configurados
  • Sistemas de automação predial
  • Dispositivos industriais publicados por engano

Por que isso é crítico?

Porque muitos desses dispositivos operam com:

  • Firmware desatualizado
  • Senhas padrão
  • Serviços expostos por conveniência
  • Falta de segmentação de rede

3) Acompanhe vulnerabilidades e tecnologias específicas

O Shodan permite filtrar resultados com base em características técnicas, como versões e serviços. Isso ajuda a responder perguntas como:

  • “Há algum servidor com um software específico exposto?”
  • “Existe RDP aberto na borda?”
  • “Temos algum banco de dados acessível pela internet?”
  • “Quais ativos estão usando certificados vencidos?”

Esse tipo de visibilidade é excelente para priorização de patching, revisão de postura e mitigação rápida de riscos.

Shodan na estratégia de defesa: boas práticas para transformar achados em ação

Encontrar exposição é só metade do trabalho. O que diferencia uma empresa madura é o que ela faz com isso.

Aqui vão práticas objetivas para aplicar os dados do Shodan na defesa.

1) Crie uma rotina de monitoramento de exposição

Não adianta consultar uma vez e esquecer. Ativos mudam, regras expiram, projetos surgem. O ideal é ter uma rotina periódica para:

  • checar novos serviços publicados
  • validar se correções realmente surtiram efeito
  • identificar mudanças inesperadas na superfície

Se sua organização tem muitos ativos, vale transformar isso em processo: monitoramento contínuo de borda.

2) Priorize correções com base em risco real

Nem toda porta aberta é uma crise. Mas algumas são. Priorize:

  • Serviços administrativos expostos (painéis, consoles, interfaces)
  • Acessos remotos sem controle (RDP, SSH, VNC)
  • Sistemas sensíveis (bancos de dados, storage, APIs internas)
  • Dispositivos IoT com histórico de falhas e baixa capacidade de patching

A regra prática: se está exposto e não precisava estar, feche. Se precisa estar exposto, controle e endureça.

3) Faça hardening e reduza “informação demais” nos banners

Muitos sistemas entregam versão, nome do serviço e detalhes desnecessários. Isso facilita a vida de quem busca um alvo fácil. Ajustes comuns incluem:

  • remover ou reduzir banners
  • exigir autenticação forte e MFA
  • restringir acesso por IP/VPN
  • segmentar rede e limitar tráfego lateral
  • aplicar atualizações e firmwares

4) Use o Shodan como apoio no inventário e na gestão de ativos

Muita empresa acredita ter um inventário “completo”,  até olhar pelo Shodan e encontrar coisas que ninguém lembrava. Ele pode ser um aliado para:

  • descobrir shadow IT
  • localizar serviços antigos
  • confirmar exposição de terceiros e fornecedores
  • validar se ambientes de teste foram removidos

Na prática, isso aproxima o Shodan de um aliado tanto para pentest quanto para times de Blue Team: ele ajuda a encontrar o que está fora do radar e a transformar exposição em correção.

Shodan como vantagem defensiva…se você usar primeiro

O Shodan é uma ferramenta que expõe um fato desconfortável: a internet já sabe muito sobre o que você publica. A boa notícia é que, ao entender o que é Shodan e aprender como usar o Shodan com foco defensivo, você ganha algo raro: visibilidade prática, acionável e alinhada ao risco real.

O jogo moderno da segurança não é só reagir, é enxergar antes. E, quando você usa o Shodan para mapear sua superfície de ataque, você reduz oportunidades para atacantes e melhora sua postura com clareza, método e prioridade.


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